Transformação digital – abundância e regulações, qual é o caminho do meio?

Transformação Digital

Transformação digital – abundância e regulações, qual é o caminho do meio?

Os processos de transformação sempre causam impactos na vida das pessoas e na sociedade – mudam rotinas, costumes, culturas. Geram movimentos de aproximação e de rejeição e, assim, aos poucos, o deslumbramento, o medo, a angústia vão dando lugar ao discernimento, ao relativismo e aos posicionamentos críticos.

Acompanhamos esse movimento pendular em relação à tecnologia digital, destacando as facilidades que elas promovem, a abundância de recursos e as infinitas possibilidades de acessos e experiências rumo ao conhecimento. Ao mesmo tempo, nos deparamos com aspectos transgressores, crimes cibernéticos, vícios, doenças decorrentes dos seus usos em excesso.

Todavia, é preciso considerar que a transformação digital é fruto do avanço do conhecimento científico, e do uso de metodologias científicas tão importantes para a civilização humana. Tais avanços tornaram a vida humana mais saudável e com qualidade, como a diminuição da desnutrição e morte precoce de crianças e adultos, já possíveis em algumas localidades, assim como o combate às doenças através da penicilina, criação de novos antibióticos, vacinas, vitaminas sintéticas, que ao longo do tempo, foram capazes de ampliar o tempo de vida das pessoas, com mais qualidade. Hoje um tema bastante recorrente é a longevidade, com as pessoas vivendo 20 anos a mais, mudando as estruturas familiares e proporcionando novas oportunidades de negócios, resultado de todas essas conquistas.

Seja no mundo corporativo, na área da saúde, da educação ou do entretenimento, os processos digitais e o uso da inteligência artificial cresce cada vez mais a partir da captação e análise de dados. O que vem nos impactando é a rapidez com que as transformações digitais estão mudando nossos costumes, rotinas, culturas, numa velocidade sem precedentes. Ficamos assustados com o controle de nossa vida pessoal pelas redes sociais e pelas ferramentas de leitura de dados aí envolvidas. Também acompanhamos a chegada dos robôs, os chatbots, em nossos acessos bancários, em sites e em diversos serviços digitais ou telefônicos. Os chatbots, por exemplo, visam otimizar a relação com os clientes e, embora sejam soluções tecnológicas, os especialistas buscam cada vez mais a humanização dessas interações. Enquanto isso, novas legislações começam a regular a privacidade, visando adequar os processos ao novo contexto de mundo e dos usuários, como a LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais – LEI Nº 13.709, DE 14 DE AGOSTO DE 2018..

Com tudo isso, cresce a discussão de que muitas profissões vão se extinguir em função da substituição do trabalho mecânico, de baixa qualificação, pelas máquinas (computadores). E até mesmo outras profissões mais especializadas como as da medicina, do direito, da contabilidade, estão avançando exponencialmente em soluções digitais muito mais específicas e otimizadas.

Acompanhamos, ainda, a disputa geoeconômica e política de lideranças locais e globais em torno da sustentabilidade do planeta, enquanto surgem novas soluções na área da alimentação como carnes feitas de proteína vegetal, como o hambúrguer à base de ervilha, soja e beterraba, da Fazenda Futuro, que busca a qualidade e o sabor original do alimento. As foodtechs, startups de alimentação, já fazem parte de cerca de 3% desse modelo de negócio no Brasil, como demonstra a Revista Época, na matéria A Reinvenção da comida, em sua edição de 1193, de set/2019. Engana-se quem pensa que essas soluções são voltadas apenas para as pessoas vegetarianas ou veganas: “As novas gerações não vão aceitar decisões que não sejam benéficas para toda a sociedade”, diz o presidente da Danone, Emmanuel Faber, em entrevista na mesma edição. Versões orgânicas de marcas tradicionais da empresa já é uma realidade.

Pelas Redes Sociais desfrutamos de uma comunicação cada vez mais ágil, reduzindo distâncias e nos aproximando de pessoas já conhecidas ou outras nem tanto. Arriscamos dizer que a teoria dos 6 graus de separação, que diz que estamos a seis pessoas de quem a gente quiser conhecer no planeta, está reduzida à metade com as inovações que a tecnologia digital nos traz diariamente. Em pouco tempo as redes passaram a ser cada vez mais usadas para dar visibilidade a temas como a preservação dos biomas, a inclusão social, a inclusão de pessoas com deficiência, marcando uma época de valorização da diversidade.

Saturação digital e a volta ao analógico

Contudo, adquirimos tantas informações e contatos que já começamos a viver, também, processos de saturação…

Nesse sentido, alguns profissionais, com o a professora de design da universidade de Stanford, na Califórnia (EUA), Jenny Odell, defendem um outro modo de viver: ela, por exemplo, propõe que a gente se liberte das curtidas nas redes sociais e dos milhares de aplicativos que favorecem ainda mais o acesso aos nossos dados, para uma volta à conexões mais saudáveis com a comunidade e seu entorno, num estilo mais analógico.

Juntando-se a ela, o psicólogo dinamarquês Svend Brinkman propõe que passemos a consumir menos, numa postura de contenção de nós mesmos, a fim de fazer frente à economia de consumo que provoca um desejo que querer sempre mais, o que leva a um estado de insatisfação permanente. Jenny Odell alerta para a “economia da atenção”, propondo a alternância entre o excesso de foco em nossas atividades e a distração. Se ficarmos muito focados no trabalho e nas tecnologias, tendemos a desprezar a vida social, já o seu oposto, a distração, em excesso, dificulta nosso investimento no trabalho. Ambas precisam ser dosadas.

O outro lado do excesso tem a ver com a “doença da solidão”, frequente em pessoas que têm mais dificuldade nas relações sociais. Essas se utilizam das redes sociais e dos jogos eletrônicos como suporte para interagir com pessoas de forma distanciada e “protegidas”, tornando-as ainda mais isoladas do mundo real. A solidão já tem classificação pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e afeta diretamente aos jovens.

As inovações, e a consequente transformação digital que vem daí, nos trazem ganhos e, também, aspectos que possam ser, em certa medida, perturbadores à nossa saúde pessoal e às nossas relações sociais. Precisamos estar dispostos a reaprender a aprender para vivermos bem e, por que não, ainda melhor, nesta nova era.

O tal caminho do meio vem como uma referência à ética aristotélica, a da virtude da coragem, que preconiza usarmos o grau e a intensidade corretos em todas as nossas escolhas, de acordo com as nossas possibilidades. E, assim, podermos usufruir de todas essas mudanças de modo a nos fortalecermos e sermos verdadeiros protagonistas do mundo que queremos para todos.