Bolhas, uma nova tribalização?

Bolhas, uma nova tribalização?

Cenário: interlocução com alunos de uma turma de ensino médio sobre a dinâmica entre eles. “nossa turma é cheia de bolhas… dos meninos, das meninas, dos novos, das briguentas, dos nerds, dos que gostam de funk. E tem uma bolha dos nômades: aqueles que transitam nas diversas bolhas. Quem tá na bolha tem mais a ver com os que são de lá, curtem as mesmas coisas, saem juntos. Mas a gente se dá bem… quando tem algum problema, todo mundo se junta”.

Essa descrição mostra como as bolhas expressam marcas identitárias, comportamentos, interesses, compartilhamento de ideias, linguagens, modos de vestir, comer, etc.

O que parece tranquilo, confortável, nem sempre é bem assim. A fragmentação em grupos bem demarcados, expressa, muitas vezes, uma convivência frágil, de conflitos que demoram a se resolver por conta de uma tensão permanente e de um cotidiano pouco tolerante entre os sujeitos aí envolvidos.

Aprofundando o entendimento das bolhas, Maffesoli (2004), sociólogo francês, destaca o tribalismo como um movimento cultural, próprio da pós-modernidade, no qual o projeto de Estado não se construiu como aquele da modernidade, que era assentado nos ideais iluministas de fraternidade, igualdade e liberdade.

Na pós-modernidade, o Estado não consegue acompanhar as articulações culturais tal como antes, assim, o tribalismo se mostra como um processo de desindividualização, de rompimento com grandes projetos sociais e, assim de “não-ativismo social”, no qual a pessoa (persona) se integra ao microgrupo para viver os projetos do grupo, uma pseudoemancipação. É uma nova forma de viver a sociabilidade, o aqui e o agora, por isso, tem um caráter imediatista, rapidamente mutável.

Um fator preponderante no tribalismo é a tecnologia e as redes sociais, que tornaram possível expressar ideias livremente e ganhar confiança no anonimato, fortalecendo posições de vários tipos, mobilizações sustentáveis, humanitárias, e, também, extremistas, radicais, xenófobas.

Nesse sentido, autores como Maffesoli e Bauman (1999) evidenciam suas inquietações em relação à intolerância e à dificuldade de entrar em contato com o “outro” – uma condição humana que reflete um longo processo civilizatório, também estudado por Freud.

Muitos criticam a internet por ser responsável por exacerbar as manifestações de intolerância, mas, na opinião de outros autores, ela é apenas um canal para as bolhas que sempre existiram, um meio que permite expressar ideias sobre o que realmente os grupos pensam. Essa visão, porém, reafirma que é necessário exercitar a tolerância de uma maneira geral, no sentido de entender a ética universal, o respeito ao outro, e analisar criticamente toda essa diversidade.

A nova tribalização, ou o reagrupamento em bolhas, requer um trabalho intenso na formação das gerações, na sensibilização pelo outro, na tentativa de escuta de posições contrárias e na força do diálogo para construir uma convivência possível.